sábado, 24 de outubro de 2009

relato de um escravo

Até que enfim parei um pouco, peso da porra isso, parece que a cada dia um quilo pesa mais, deve ser da idade, coisa de velho como dor nas costas, dor nas pernas, visão falha e cicatrizes. É, cicatrizes. Tenho algumas cicatrizes que tem quase minha idade, é verdade mesmo, talvez não dê mais para ver, mas é por culpa das novas cicatrizes que cobriram as mais antigas.

Levar chicotada nas costas dói, já estou numa fase que só de ouvir a ponta do chicote cortando o ar e estalando já sinto a dor, antes mesmo da minha pele se rasgar e ficar inchada, não preciso dizer que é uma sensação bastante desagradável. E eu não sei o que faço de errado, eu carrego peso excessivo todo dia e o dia todo, e o peste ainda me bate, queria ver se fosse ele aqui no meu lugar, na corrida pra cá, na chicotada pra lá, aguentando grito, puxão o escambau.

Estou velho e cansado e ninguém liga pra isso, estou sozinho, não entendo direito o que me falam, mas mesmo assim me esforço, dou o melhor de mim. Se bem que é difícil ter forças quando se trabalha sem comer nem beber água o suficiente para o trabalho, e sem contar na atenção que tenho que prestar para não morrer. -por falar em água, deixa eu aproveitar essa pequena pausa para matar minha sede nessa vala de água barrenta... hmmm! só está um pouco quente e suja, mas beleza, vamos nessa-.

Cara, muitos colegas meus morreram quando uma coisa veloz -sei lá que porra era aquilo- os atingiram em cheio. O pobre do Sandoval, por exemplo, sofreu por horas com as pernas quebradas e vísceras semi expostas até que alguém chegou para socorrer. Bem, "socorrer" é força de expressão já que o cara não foi para tratar dos ferimentos e sim para mata-lo com uma paulada na cabeça. No fim das contas acho que foi melhor assim, pelo menos ele esta descansando agora. Penso que a pessoa que matou o Sandoval sentiu algo perto de empatia, talvez compaixão. É, acho que é isso.

Destino pior teve um gringo lá pelas bandas da... acho que foi Austrália, fiquei sabendo que em pleno dia de nossa comemoração ele levou duas flechadas no tórax, e não morreu na hora. Pior, o "Hobin-Wood" gravando tudo pelo celular, e achando pouco, foi lá e tentou derruba-lo com alguns chutes, não conseguiu. O pobre com DUAS FLECHAS NO TÓRAX aguentou enquanto pode, não foi muito, mas tenho orgulho dele: foi duro na queda. Fico pensando onde esse mundo vai parar.

-EITA POOORRA!! Desculpe, acabei de levar uma chicotada- Por que esse filho da puta não para de me chicotear!? Caralho, sabe o que é o pior nisso tudo? É ver esse monte de gente olhando com cara feia para o filho da puta que me chicoteia e não faz nada, cambada de desgraçados, se eles olham com cara feia é porque sabem que tá errado, talvez muito mais do que esse infeliz que me explora, é isso mesmo, tem tanta culpa quanto.

-AAAAAAAAAAAI!!! POOORRA!!!! Essa doeu de verdade- Bicho tô indo nessa, é melhor eu me concentrar aqui no trampo, quem sabe tenho direito a um resto de feira hoje a noite? E já esta escurecendo, se bem que acho que o rango vai sair atrasado, o chefe tá mal-humorado e vi que só levamos um pouco mais da metade dos tijolos que tem para carregar. Já vi que vai sobrar para mim.

A vida não está fácil para ninguém, principalmente para mim. Gostaria muito de ter um pouco de liberdade, de poder correr um pouco, de não viver num cubículo mal iluminado, imundo e úmido, ter um pouco de comida fresca, ter outros parecidos comigo para fazer companhia, enfim, ter alguém que goste de mim. Seria lindo... que vontade de dormir! E ainda tenho que levar essa porra toda aqui. Mas bem, sejamos otimistas, quem sabe eu consigo um banho amanhã, não ter essas moscas em cima das feridas e me livrar de alguns carrapatos seria ótimo. Com essa vontade de dormir me lembrei do lindo sonho que tive ontem:

no dia que nos derem o devido valor

Tenho que ir agora, a gente se vê por ai numa rua dessas, beleza?
Forte abraço do equino que trabalha na mercearia da esquina da sua rua.

-
"Se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete crueldade contra um animal, então somos companheiros."

Visitem: http://chicotenuncamais.blogspot.com/

NOTA DO AUTOR:

Este texto é o rascunho do artigo que sairá na zine CABRA da PESTE, portanto desconsiderem os erros, ok? Ou melhor, se encontrarem erros de ortografia, pontuação me avisem pelo comentário. Não tenho revisor oficial. =)

4 comentários:

Adivinha disse...

Olá, mais uma vez, gostei do texto.
De fato, é triste ver como esses animais sofrem, para que os nossos "desejos" sejam feitos. Infelizmente, percebe-se a falta de delicadeza e de compaixão com eles. É desta forma que tendemos ao caos: não damos valor aos animais, imagine aos nossos chegados!

Sim, faço Medicina na UFRJ... Amo o meu curso e garanto que não farei os outros sofrerem!

Até a próxima!

ruar disse...

Muito bom o texto adelma!

Infelizmente não sabemos dar o devido valor aos animais. Para mim, eles possuem uma consciência de coletividade muito melhor que a nossa, já que não atacam a outros sem necessidade, nem matam caso não seja para alimentar-se...

Bruno disse...

Muito bom o texto Adelma. Gostei, em especial, da ilustração do sonho.
Abraço

Marcia disse...

gostei muito do texto adelma ;o)